Num campeonato longo e exigente como o Brasileiro, todos os times chegam ao final lamentando pontos que deixaram pelo caminho. Para alguns, no entanto, a conta pode ser alta. A duas rodadas do fim do primeiro turno, o Fluminense ocupa uma ilusória nona colocação, o que, numa análise superficial, pode sugerir tranquilidade. Mas a diferença que o separa do Santos, o primeiro time na zona de rebaixamento, neste momento, é de apenas cinco pontos. Parece exagero falar nisso com o time na primeira metade da tabela? Talvez. Mas há, ao menos, cinco fatores que não podem ser esquecidos.
O ponto de corte para a manutenção na Série A tem ficado na casa dos 45, 46 pontos. Ano passado, o Vitória se manteve com 43, mas Coritiba e Avaí caíram com a mesma pontuação. Já houve equipes rebaixadas com 46 pontos. Tranquilidade mesmo, pelo que mostram as estatísticas, só com 47. O Fluminense acumulou até agora 22 pontos. Na melhor das hipóteses, completará a 19ª rodada com 28, o que seria bom. O problema é que, historicamente, o segundo turno é mais traiçoeiro do que o primeiro. Algumas equipes até abandonam o campeonato para priorizar outras competições e isso pode representar vantagem para aqueles mantêm o foco. Mas o desespero nas dez últimas rodadas torna todos os jogos uma espécie de roleta russa. Nas últimas quatro edições, a pontuação do Fluminense no returno foi sempre menor do que no primeiro turno. E, sabemos todos, o time atual está muito longe da maturidade.
Nessas primeiras 17 rodadas, a equipe conseguiu a proeza de perder para três dos quatro times que estão na zona de rebaixamento, um dos quais em pleno Maracanã. Isso mostra que qualquer jogo, para um elenco instável, é difícil. Não importa o adversário. E quanto maior a pressão por resultados, maior será a instabilidade.
Quase metade das 11 equipes que estão abaixo do Fluminense na classificação tem um jogo a menos. O Vasco tem dois. Claro que jogos a menos não são garantia de pontos, mas são, ao menos, uma possibilidade.
Mais instável do que o desempenho do time em campo, só a política sempre efervescente do clube. A falta de planejamento, de firmeza e de resultados deixam as Laranjeiras em permanente turbulência. Mesmo distante fisicamente, o futebol acaba sofrendo os reflexos.
Por último, mas não menos importante, há a fragilidade de um elenco malformado, com negociações feitas às pressas e sem o menor critério. Jogadores que chegam e saem do clube como numa estação de metrô. O Fluminense atual sobrevive do talento de um jogador e do esforço dos outros. Pode ser o suficiente para ganhar um jogo, surpreender um adversário, mas não para uma campanha consistente e confiável.
Por tudo isso, acredito que as maiores dificuldades ainda estão por vir. É bem verdade que mais da metade dos times que disputam o Brasileiro não mereciam estar na Série A. Como apenas quatro serão rebaixados, ao menos seis escaparão sem merecer. Mas convém manter o alerta ligado. O time de Marcelo Oliveira continua andando no fio da navalha.
Alvaro Oliveira Filho começou como jornalista na Editoria de Esportes de “O Globo”, em 1987. Teve passagem pelo Lance!, entre 2000 e 2002, quando passou a trabalhar como comentarista esportivo da rádio CBN. Participou da cobertura das Copas do Mundo de 2002 a 2014.