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Catalisador de performance

Dedé Moreira

Há alguns posts postei uma frase por aqui de um de um dos mais renomados teóricos do jogo de posição Juanma Lillo: “digas com quais meio campistas andas e te direi que equipe és”. Até aquele primeiro tempo do jogo contra o Grêmio o Fluminense vinha tendo algumas dificuldades na implementação prática de um modelo, que como ideia, é muito boa. E isso tinha total relação com algumas escalações no setor de meio campo. Abro um parêntese, vou ao site do Fluminense, clico no elenco. Está lá: Airton, Bruno Silva, Allan são volantes. Dodi é meio campista. E por aí vai, porque o Fluminense ainda separa os meio campistas em volantes e meias, contrariando completamente o que dispõe o futebol moderno que não mais os diferencia. Meio campistas são meio campistas e devem exercer as funções atinentes a todos os meio campistas. Ou seja, nem em teoria o Fluminense evoluiu. Pode parecer bobagem mas revela como pensa futebol a atual gestão. Fecha parêntese. Essa teoria foi pra dentro de campo. Airton, Bruno Silva. O primeiro sabe jogar, mas não reúne condições físicas necessárias para exercer todas as funções de um meio campista, o segundo reúne boa condição física e atlética, mas tem dificuldades técnicas que dificultam demais sua adaptação ao novo modelo proposto. No intervalo daquele Fluminense e Grêmio, Daniel entrou no lugar do Airton. O Fluminense dominou completamente boa parte do segundo tempo e fez 3 gols. Daniel. Um meio campista em quem muitos já não acreditavam mais, virou um espécie de motor desse meio, busca lá atrás, mexe, organiza, toca, sai. Com a contusão do Bruno, Allan, jogador que foi contratado e havia atuado em apenas 1 partida nos últimos 6 meses (dados do site Transfermarkt) foi fazer a função do Airton e a dupla de meio campistas com Daniel é responsável por organizar todo o jogo do Fluminense, fazendo as associações necessárias, que Airton não aguenta fazer pela questão física e Bruno pela questão técnica. Com a volta do Ganso, que sabe tudo dessa posição, esconde a bola, enfia bola, vira jogo, segura quando precisa, acelera quando o jogo pede, o meio campo do Fluminense passou a ter somente jogadores que sabem jogar futebol. Parece o básico né? E acrescento aqui, como meio campista, o Caio. Jogador que foi rebaixado no Paraná, virou reserva lá, teve um ano de 2018 difícil, mas que o Fluminense foi buscar e virou um lateral/meio campista que dá superioridade numérica no meio quando o time precisa e desafoga o jogo pela lateral quando é necessário. Essa mudança de meio campo catapultou os números do Fluminense. Nos 3 primeiros jogos do Brasileiro (Goiás, Santos e Grêmio) o Fluminense finalizou 35 vezes, sofreu 36 finalizações, criou 14 chances reais de gol e teve 18 chances reais contra. Nos 3 jogos após a mudança (Botafogo, Cruzeiro, Cruzeiro) o Fluminense finalizou 61 vezes, sofreu 13 finalizações, criou 20 chances reais de gol e teve 9 chances reais contra. A diferença de performance é muito evidente. A melhora do nível de atuação da equipe, agora falando como um todo, é muito clara. O torcedor enxerga alguns problemas, uns com razão e outros sem: “O time roda muito a bola e não chega no terço final do campo”. Não é verdade. Vem chegando. Nos últimos 3 jogos teve sempre percentual de posse no terço final de mais de 30% o que é ótimo número. “O time chega, mas não chuta”. Não é verdade, média de 20 finalizações por jogo é um número muito bom. “O time cria poucas chances”. Meia verdade. Aqui a gente precisa analisar o futebol como ele é. Os times se defendem do Fluminense, no último terço defensivo, com pelo menos 9 jogadores. Os times, hoje, possuem departamentos que estudam seus adversários, conhecem o inimigo. Existe a dificuldade, mas é uma dificuldade natural, que todo time que tenha como premissa essa imposição e jogar no campo do adversário possuem. E o Fluminense não tem um Messi. No último jogo o Cruzeiro saiu um pouco mais e o resultado foi aquele que vimos. A gente tem um problema na cobertura pelo lado direito porque o Gilberto avança muito. Fato. É um ponto a ser explorado pelo adversário e que quando o Bruno Silva jogava não era um perigo tão grande. Mas eu prefiro correr o risco e ter mais a bola com qualidade e recorro de novo a Juanma lillo: Não arriscar é o mais arriscado. Assim, para evitar riscos, arriscarei” Há outros 2 pontos que acho que podem melhorar, algo que o Manchester City, o Barcelona e o Liverpool utilizam demais em jogos duros. O passe muito arriscado, praticamente certo de errar, com uma grande pressão pós perda, esse movimento desorganiza sistemas defensivos sólidos. O cruzamento na área com o time todo aproximando pra buscar segunda bola e manter a pressão forte, expediente utilizado demais pelo Guardiola na sua passagem pelo Bayern. São dois casos que podem tanto desorganizar sistemas defensivos, quanto gerar perda de posse e possibilidade de contra-ataque, portanto é uso com moderação principalmente em jogos de mata-mata como o de hoje. A partida desta quinta-feira será um jogo típico de contrapontos de modelos. No seu último jogo fora de casa (perdeu os últimos em casa), o Atlético Nacional empatou em 0 a 0, com 36% de posse de bola e apenas 1 finalização. A torcida, feliz com a volta do bom futebol, resolveu comparecer ao Maracanã e vai prestigiar, com justiça, esse time, que anda merecendo esse apoio. É dia de trabalho, galera. A paciência pra furar a retranca que o time precisa ter, todos precisam ter lá de cima também. Todo mundo quer gols e goleada, mas não esqueçam que no futebol existe um adversário disposto a frustrar tudo isso. Há muito tempo o Fluminense não nos faz apaixonar, há muito tempo não desfrutamos o bom futebol jogado pelo Fluminense. Aproveitemos, antes que dirigentes sem convicção, sem projetos, sem um modelo ou um norte resolvam acabar com tudo isso nas primeiras derrotas sob a pecha de que não está dando resultados. Essa, infelizmente, é a regra de quem trabalha com futebol no Brasil. Tabelinha – Marcos Paulo com Yony na frente ou Yony pelo lado com João Pedro na frente. Sinceramente? Tenho dúvidas e em caso de dúvidas eu prefiro confiar em quem viu os treinamentos e está trabalhando. – Termino com uma reflexão de José Mourinho, em seu livro ‘Um Ciclo de Vitórias’ e que espero que o próximo gestor do clube pense a respeito: …“a mudança metodológica é duradoura porque introduz transformações estruturais. Ficando assim claras as modificações na filosofia de trabalho e no modelo de jogo…”.

Dedé Moreira, pai do Guilherme e da Marcela, marido da Larissa. Gestão de futebol e análise de desempenho pela UF (Universidade do Futebol). Futebol se joga com a bola.

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